| ALÉM DAS PALAVRAS Marcelo Castilho Avellar, Estado de Minas, Maio de 2007. Em um dos primeiros capítulos de Alice através
do espelho, o escritor e matemático Lewis Carrol apresenta um poema,
Jabberwocky. Nele, a maioria das palavras de sentido objetivo (substantivos,
adjetivos, verbos de ação, advérbios) pertence ao
inglês arcaico ou foi inventada pelo autor. Mesmo assim, ao terminar
o último verso, o leitor conhecerá uma história sobre
um herói e um monstro. Conhecerá até mesmo detalhes
do ambiente, fauna e flora onde a aventura teria ocorrido. Jabberwocky
é obra-limite para os que estudam arte, lingüística,
semiótica: lembra-nos que os sentidos, talvez sejam transmitidos
não por aquelas palavras aparentemente significativas, mas por
estruturas relacionais, como sintaxeconectivos e desinências. A
revista Alienz, de Wellington Srbek e Eduardo Pansica, investe com força
na transposição dessa idéia para os quadrinhos. O vocabulário de Alienz é cheio de
termos científicos: equação diferencial, fractal,
quark, glúon, bosón e por aí vai. Mas quem não
está acostumado com matemática, física ou outros
campos do conhecimento chegará ao final da história com
boa idéia de tudo o que se disse durante a ação ou
sobre a ação. Para construir uma história ambientada
em um planeta que, material e filosoficamente, teria civilização
bem distinta das nossas, Srbek invoca o vocabulário científico
- mas o apresenta numa estrutura lingüística que conhecemos,
o que nos permite superar até mesmo nosso desconhecimento sobre
o vocabulário. Os desenhos seguem lógica semelhante: se os elementos da imagem nos são alienígenas, a sintaxe que os associa não é. Na imagem, o truque carroliano de Alienz acaba ficando mais evidente. Percebemos a freqüência com que o encontramos em narrativas fantásticas de histórias de ficção científica na revista Heavy Metal ao nonsense da Garagem Hermética, de Moebius. As artes da imagem teriam tornado universal, muito antes das narrativas da palavra, aquela possibilidade de significado contida nas estruturas. No encontro entre texto e figura que marca os quadrinhos, a familiaridade que temos com a primeira forma de comunicação e a falta de intimidade que mantemos com a segunda produzem uma tensão que acaba dando vida e singularidade a Alienz. |