VIAGEM PELOS MISTÉRIOS DIVINOS

Flávia Waltrick, Diário da Tarde, Dezembro de 2003

Com um formato diferenciado e temas de forma polêmicos para revistas em quadrinhos, o editor e roteirista Wellington Srbek lança o álbum Apócripha. As ilustrações são feitas pelo desenhista Fernando Cypriano e conta com a editoração eletrônica de Dênio Takahashi.

Deus e o diabo são os personagens que conduzem as histórias, o que não quer dizer que as narrativas sejam construídas de maneira convencional ao abordar a luta do bem contra o mal, como é mostrado nas leituras bíblicas. Eles se revezam entre anjos e demônios, Adão e Eva, Lilith e Judas Iscariotes para demonstrar o principal enfoque que é a existência humana.

Já a primeira página da nova edição comemorativa de dez anos de trabalho independente de Srbek, o leitor se depara com um escritor anônimo sentado em um bar, quando é abordado por um misterioso homem que começa a contar-lhe uma história. Neste momento, o personagem Félix se apresenta como o demônio fugido do inferno e passa a divagar sobre o começo dos tempos, que para ele era “quando o universo era jovem como uma gota de orvalho”.

A viagem existencialista percorre os caminhos do Criador, da mente divina, das colisões galácticas, das conspirações do onisciente, onipotente e onipresente, dos jardins do Éden, da Mansão dos Mortos, entre outros. Os textos passam por Gandhi e Stalin, vão do Himalaia à Rússia, fazendo referência às belezas da Terra e às malezas criadas pelo homem.

O título da revista é condizente aos temas internos, já que a literatura apócrifa é considerada um escrito bíblico, porém não inspirado como os apresentados no Novo Testamento, e por isso são mantidos em segredo pelas Igrejas, que podem de certa maneira esconder alguns pensamentos sobre a origem do cristianismo.

Até um dado momento, os evangelhos apócrifas eram conservados, mas passaram a ser analisados em relação aos canônicos. De acordo com o contexto da pesquisa bíblica atual, alguns temas passam a ser vistos de modo crítico e inovador, como pecado, afinidade entre Jesus e Madalena e luta social, presentes nos evangelhos de Maria Madalena e Tomé.

Wellington Srbek começou a atuar como editor independente em 1993 com a elaboração das revistas e álbuns como Estórias Gerais e Fantasmagoriana. O gosto pela atividade o tornou um pesquisador de histórias em quadrinhos, prestes a defender a sua tese de doutorado sobre a revista Fradim do famoso cartunista brasileiro Henfil. Srbek já ganhou os prêmios nacionais troféu Ângelo Agostini de Melhor Roteirista por duas vezes e o HQ Mix de Melhor Álbum Nacional nos últimos dois anos seguidos.

Fernando Cypriano é professor de Educação Artística, formado em Belas Artes. Já desenhou nas revistas Quantum e Mystérion, sendo Apócripha sua primeira edição completa. Dênio Takahashi, além de especialista em editoração eletrônica, é também cartunista e já participou de diversas revistas e álbuns.

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