O roteiro de Wellington Srbek em Estórias Gerais é uma celebração da importância de João Guimarães Rosa para a cultura brasileira. Srbek não nos conta histórias (ou estórias...) de Rosa, nem fica a citar aleatoriamente elementos de suas narrativas. Constrói seu roteiro de maneira roseana, mas não pensando como algo sagrado nas voltas que obras como Grande Sertão: Veredas dão, e sim olhando-as como um caminho possível, eficiente e adequado para narrar histórias do sertão. O resultado é deslumbrante. Histórias brotam de dentro de histórias, integrando-se à milenar tradição que tem como obra maior as 1001 Noites – e como renovação máxima o romance maior de Rosa. Pontos de vista entram em choque, real e fantástico interferem-se mutuamente, como a nos lembrar que a verdade é inatingível mas não importa, o mundo é construído sobre as narrativas sobre o mundo, e não sobre alguma verdade hipotética.
Na parceria visual de Srbek está um dos desenhistas de quadrinhos de traço mais marcante no Brasil, Flávio Colin. Poucas escolhas seriam mais adequadas. Há algo de primitivo no traço de Colin, não porque seja rústico (ao contrário, trata-se de um traço extremamente sofisticado em seu jogo de imagens claras em que o escuro, o preto, a sombra tornam-se extremamente significativos), mas porque parece representar o que é rústico, o que é incivilizado, agreste, forças que se escondem por dentro da aparência de racionalidade de pessoas ou culturas.
Ao longo da trajetória de Colin, este jogo funcionou principalmente para a metafísica das histórias de terror, a investigação de raízes culturais em sagas históricas brasileiras, a expressão do homem em contato com a terra em dramas rurais – ou seja, sempre uma representação das origens, do homem frente a algo profundo e telúrico. Estórias Gerais, com suas narrativas sertanejas, não foge a esta regra, mas acrescenta-lhe um dado novo: para um roteiro que conta o contar histórias mais do que as próprias histórias, ele oferece um desenho que representa o jeito de representar estas origens. O resultado é algo magnífico, e da soma do roteiro e dos desenhos pode estar saltando o primeiro clássico dos quadrinhos de Minas no início deste milênio.