AS GERAIS, EM LINHAS POUCO GERAIS

Sidney Gusman, Quadrinhos em Foco, Setembro de 2001

O mestre do quadrinho nacional Flávio Colin costuma enfatizar que os roteiristas brasileiros, ao invés de se influenciarem por obras estrangeiras, deveriam buscar inspiração em nosso país, que é extremamente rico em histórias verdadeiras e fictícias – vide o sem-número de lendas existentes de norte a sul.

E não é que o veterano desenhista foi ouvido? No belíssimo álbum Estórias Gerais, que pode ser encontrado em livrarias especializadas e comic shops, o mineiro Wellington Srbek resolveu contar vários “causos” baseados na vasta história dos sertões de seu estado natal. E adivinhe quem o roteirista escolheu para ilustrá-lo? Ponto para quem respondeu Flávio Colin!

Na introdução do livro, Srbek conta que cada página e cada seqüência foi concebida para o traço único de Colin, pois não haveria outro artista para realizar esta história.

Estórias Gerais passa-se na década de 20 e começa quando um jornalista chega a Buritizal, uma pequena cidade fictícia do norte de Minas, à margem do rio São Francisco. Ele queria averiguar a história de Antônio Mortalma, um bandoleiro que apavorava os moradores locais.

O “moço das letras” coleta várias informações sobre a origem do bandido e, após ouvir afirmações de que ele seria o demônio ou teria parte com o “dito-cujo”, chega à conclusão que “a rusticidade do vilarejo faz-se notar também em seus habitantes e eu a expedição patriótica comandada pelo coronel Odorico Pereira será o primeiro passo de uma epopéia cívica para pôr fim àquele reinado de terror”. Até que o seu guia (na verdade, um capanga disfarçado) coloca-o cara a cara com Mortalma, num lugar ermo.

A partir daí, Srbek muda o rumo da prosa a cada um dos seis contos do livro. Todos os capítulos são protagonizados por personagens diferentes, que são incorporados à trama fora de cronologia. Ao final, o autor amarra todas as pontas soltas de maneira muito competente.

O roteirista narra com maestria os inúmeros fatos que se sucedem em páginas repletas de ação, tramóias e misticismo. Tudo isso acaba por mudar completamente a óptica preconceituosa do jornalista.

Além de ser uma história bem-contada, Estórias Gerais dá, ao leitor, a sensação de estar com um quadrinho de época nas mãos, por causa dos cenários, das indumentárias, do linguajar usado pelo jornalista e pelo delicioso “mineirês” que os personagens mais simples falam o tempo todo.

Alie-se a isso tudo o traço singular de Flávio Colin e a receita para uma boa obra está completa. Além do seu incrível domínio das técnicas de luz e sombras, da velocidade que consegue impor à narrativa e da habilidade com que integra as onomatopéias à sua arte, é impressionante a facilidade com que ele retrata as expressões faciais dos personagens. Como Srbek sugeriu muitos closes no roteiro, seu traço evidencia cada detalhe dos rostos, transmitindo, num arregalar de olhos, num mexer de lábios ou num franzir de testa, toda a emoção das cenas.

O leitor menos atento pode achar que comprou algo velho, pelo fato de o final da introdução estar datada de fins de 1998. Nada disso! O problema é que a obra ficou três anos engavetada, porque nenhuma editora se interessou em lançá-la. Isso só foi possível, porque Srbek, depois de muito batalhar, conseguiu enquadrar Estórias Gerais na lei de incentivo à cultura da prefeitura de Belo Horizonte.

Por isso, não é à toa, o texto que abre a edição, no qual o autor fala de suas influências na obra, foi “mineirissimamente” bem intitulado como Travessia, a última palavra de Grande Sertão: Veredas, obra-prima de Guimarães Rosa e uma das mais belas canções de Milton Nascimento.

Quando se chega à última página de Estórias Gerais, é reconfortante notar que é possível fazer boas HQs falando do Brasil. Para isso, basta se aprofundar na rica cultura popular do país. Basta que, como neste álbum, a história seja (bem) contada – em linhas pouco gerais.

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