Toda história começa de algum ponto, e no geral tem um início, um meio e um fim. Estórias Gerais, contudo, não surgiu exatamente do ponto que acabou sendo a início do álbum.
Com a mente povoada de idéias e imagens envolvendo o Sertão e a cultura popular, mas tendo nascido e passado quase toda a vida numa “cidade grande”, o encontro dessas duas realidades tornou-se para mim um tema em si.
Assim, este foi o ponto de onde o que viria a ser Estórias Gerais surgiu: um personagem vindo da capital do estado chega ao Sertão de Minas para pesquisar sobre um temido chefe jagunço, mas acaba caindo nas mãos do famigerado bandido e de seu bando. É o que vemos nas páginas de meu roteiro original, reproduzidas aqui:
A situação apresentada nessa sequência de páginas foi a “nascente” de Estórias Gerais. Com este roteiro, desenhado em janeiro de 1998, eu aprimorava minha forma de criar quadrinhos. Sempre trabalhei com roteiros desenhados, mas nas parcerias com desenhistas de Belo Horizonte eu podia me limitar a esboçar as páginas a lápis, escrevendo o texto a mão. Afinal, quaisquer dúvidas quanto a meus desenhos ou caligrafia poderiam ser resolvidas pessoalmente.
Isso não seria possível no caso do trabalho com Flavio Colin, pois morávamos em estados diferentes, e todo contato seria feito por cartas e telefonemas. A solução então foi adaptar a forma de fazer os roteiros desenhados à nova situação de trabalho. Ou seja, fazendo esboços mais detalhados e até mesmo “arte-finalizados” e indicando o conteúdo das legendas e balões por números correspondentes a um texto redigido no computador.
O novo processo deu certo, e em mais de 140 páginas tivemos apenas dois pontos em que originais tiveram que retornar para serem feitas correções. Era também um modelo de trabalho que agradava a Colin, pois ele não tinha que se preocupar com a diagramação das páginas, que considerava “a parte mais trabalhosa”. Na verdade, o velho mestre desenhava mais rápido do que eu conseguia produzir novos roteiros, e me lembro de passar domingos inteiros trabalhando em um terço de capítulo, para lhe enviar na segunda pela manhã.
Surpreendentemente, de certo ponto em diante, lá pelo terceiro capítulo, a história começou a contar a si própria, e eu me tornei apenas um instrumento de sua auto-realização. E assim, de janeiro a outubro de 1998, produzimos os 6 capítulos principais de Estórias Gerais e as 4 páginas em cores de Estória de Onça. Aquele foi um dos períodos mais incríveis de minha vida, e você pode ver mais elementos desta história clicando em personagens gerais