O último lançamento dos quadrinhos produzidos em Minas no ano de 2001 foi Fantasmagoriana, nova criação da dupla Wellington Srbek (roteiro) e Flávio Colin (desenhos). Um fecho de qualidade, mesmo se seu vôo não chega às alturas do trabalho anterior dos dois, Estórias Gerais, também de 2001. Mais uma vez, o convite feito por Srbek ao desenhista não ocorreu apenas com o objetivo de atrair a atenção de um dos maiores nomes dos quadrinhos brasileiros. Ninguém, senão Colin, com seu traço que parece apreender raízes ou origens, sejam sociais OU metafísicas, poderia ter desenhado Fantasmagoriana.
A adequação funciona em dois sentidos. Em primeiro lugar, Uma Noite no Fim do Mundo, a história que a revista traz, é um conto de terror - e Colin é um mestre nos climas de terror, realizando-os de maneira surpreendente, sem se deixar seduzir pelas imagens escuras que geralmente marcam o gênero, construindo uma espécie de "terror sob luz intensa". Se qualquer um usa litros de tinta preta para representar o céu noturno, as noites nos terror de Colin têm fundo claro, o que resulta em algo fantasmagórico, incômodo. Em segundo lugar, Uma Noite no Fim do Mundo ampara-se numa leitura do fabulário fantástico brasileiro, e Colin é alguém extremamente sintonizado com os rumos da busca de imagens que traduzam a cultura nacional.
Basicamente, Uma Noite no Fim do Mundo estrutura-se como um caso popular. Até aqui, nada de mais, que Wellington Srbek vem investigando bastante esta vertente. As coisas começam a mudar um pouco quando esta estrutura dobra-se em si mesma, contendo um caso dentro de outro caso - outra possibilidade que vem fascinando o roteirista e explica, por exemplo, a homenagem a Guimarães Rosa constituída por Estórias Gerais. Mudam mais ainda porque o caso de Srbek lida simultaneamente com signos da tradição e da contemporaneidade, enquanto o fabulário convencional dos casos privilegia apenas a tradição. Esta contemporaneidade está não apenas na presença da televisão como elemento narrativo e interferência na tradição, mas também na incomum equiparação entre velhos fantasmas e mortos recentes na galeria de tipos que na obra.
No processo, Uma Noite no Fim do Mundo acaba por se apresentar como um labirinto. Se o herói da história sai da realidade objetiva e mergulha no mundo fantástico ao enveredar por becos e ruelas, o leitor segue simbolicamente o mesmo caminho. Quando pensa que anda em determinada direção, descobre que um dos quadros o conduz a outra. O que parece real muda de figura ao ser convertido em programa de televisão, o que é programa subitamente modifica as motivações das personagens no mundo real. Cada caminho é único, carrega consigo sua própria tragédia, mas todas as tragédias perecem se encontrar na estranha procissão mostrada no clímax da obra - como no labirinto em que os corredores são inumeráveis, mas a entrada e a saída (liberdade e minotauro para os gregos, ou seja, vida e morte) precisam ser a convergência de todos eles.