Talvez ainda seja precipitação dizer que Wellington Srbek é o mais importante artista atual dos quadrinhos em Minas Gerais. Mas a afirmativa não estará muito distante da verdade. Nesta temporada ele escreveu e produziu dois dos mais significativos lançamentos brasileiros do setor. O primeiro foi Estórias Gerais, magnífica leitura da arte de contar histórias (à luz de Guimarães Rosa e com desenhos não menos expressivos de Flávio Colin).
Talvez exatamente nesta oposição esteja parte da criatividade de Srbek. Estórias Gerais era uma obra de formas clássicas construída sobre um tema contemporâneo, a metalinguagem e seus limites; Quantum é a criação de formas vanguardistas sobre questões clássicas - o sentido da arte, os limites do conhecimento, a inclinação do ser humano para o bem, três temas que dominam cada uma das histórias do álbum - ou partes da história, já que se ligam mais como as obras de uma trilogia do que em meras conexões de enredo.
O conjunto pode não ter a estabilidade que Estórias Gerais tinha, tanto na diversidade dos desenhistas (a primeira e a última são belas tanto em conceito quanto em realização, mas no meio das outras há as que mereciam uma diagramação mais inventiva que caem no lugar comum, realismos que escorregam para a ingenuidade) quanto na irregularidade do ritmo. Perdoam-se estes elementos, contudo, quando o leitor percebe que são muito mais sintomas de uma espécie de estética de espasmos do que falhas técnicas ou conceituais.
E Quantum é um espasmos, escarros, vômitos: uma destas obras radicais e pessoais, que podem ser percebidas como desabafos de seus autores. Srbek deve ter gastado mais tempo e energia criando Quantum que organizando a obra, e talvez ela parecesse falsa ou vazia se fosse mais organizada. É seu jeito de desabafo, sua liberdade formal e descompromisso com uma estética bem-comportada que lhe dão vida. Uma vida que vai entediar quem acha que viagens filosóficas, existenciais ou estéticas são desperdícios de tempo: mas que pode convencer os que pensam o contrário. E em qualquer dos dois casos terá cumprido a missão de qualquer obra que se pretenda mais autoral.