Na produção de uma história em quadrinhos (ou de qualquer outra forma artística) o autor não tem total controle sobre o que está criando. Em QUANTUM, algumas das cenas sugeridas para os desenhistas através do roteiro têm origem em imagens que passaram a fazer parte de meu imaginário pessoal.
A sequência de Like a rolling stone em que Pedro corre em perfil, enquanto a pedra canta, foi sugerida por um filme de fins científicos, do início do século XX, no qual o cinema era utilizado para o estudo da anatomia humana (atualmente, um excerto deste filme pode ser visto na abertura do programa Globo Ciência, enquanto sua estrutura visual serviu como uma das referências estéticas para o videoclip Lemon da banda U2).
Uma destas “imagens da memória” que inspiraram QUANTUM (que eu já havia utilizado numa história em parceria com o mestre Julio Shimamoto) é a gravura Monte Fuji entre as ondas, do artista japonês Katsushika Hokusai. Desde a primeira vez que vi esta obra, há pouco mais de 20 anos (numa reprodução da Enciclopédia Disney) fui “fisgado” pela gigantesca onda em forma de gancho, que envolve o monte ao fundo e ameaça despedaçar os frágeis barcos, arrastando com suas “garras” os pequenos pescadores. O incrível dinamismo desta gravura sempre me arrebata.
Pelo que me lembro, por volta de meus quatro ou cinco anos, a descoberta de Monte Fuji entre as ondas foi minha primeira experiência verdadeira com a arte - a primeira vez em que num pequeno quadro de finitas proporções, um mundo infinito surgiu para mim.