PEDRAS E ROSAS

Wellington Srbek

Segundo Neils Bohr, na mecânica quântica as palavras só podem ser empregadas de forma alusiva, “como na poesia, pois não se trata de expressar precisamente dados objetivos, mas sim de fazer com que o ouvinte conceba imagens na sua consciência e estabeleça ligações mentais”.

Também em QUANTUM as imagens e as palavras acabam por remeter à poesia. Tendo como companhia as canções de Bob Dylan, no meio do processo criativo encontrei uma Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade - embora a estrutura do roteiro já estivesse delineada, os versos destes grandes poetas serviram de inspiração para alguns dos elementos decisivos da história.

O título da segunda parte de QUANTUM vem de uma das mais conhecidas canções de Bob Dylan. Lançada em 1965, Like a rolling stone lida com uma questão social e, na verdade, não tem uma relação direta com o roteiro - a não ser pela estrofe em que Dylan se dirige à personagem central indagando:

"Como é a sensação
Como é a sensação
De não ter uma casa
Como um(a) completo(a) desconhecido(a)
Como uma pedra que rola?"

O que acontece aqui é um jogo de idéias com a situação da história (na qual o idealizado Reino do Absoluto se desfaz) e a condição psicológica do personagem Pedro de Andrade (que não entende o que se passa), enquanto é guiado pela irônica pedra falante, que (como aquela do famoso poema de Drummond) é mais que um simples objeto mineral.

Além da referência ao bastante conhecido, mas pouco compreendido, No meio do caminho, devo a Carlos Drummond a inspiração para a rosa que aparece em meu roteiro, que não é uma simples flor, nem tampouco apenas um “buraco negro”, mas em especial um signo para a criação poética em geral (na qual o quadrinho-arte está incluído). Por uma razão algo enigmática, devo agradecer ao poeta pelo seu Anúncio da Rosa:

“Aproveitem. A última
rosa desfolha-se.”

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