Segundo o filósofo Imannuel Kant, sublime é algo que não pode ser medido, “é aquilo em comparação com o que tudo o mais é pequeno”. Daí se pode concluir que o sublime é uma idealização, visto que é impossível apreendermos sensorialmente algo que seja “absolutamente e em todos os sentidos (acima de toda a comparação) grande”.
No entanto, nossa vida cotidiana baseia-se em experiências objetivas, em aferições e comparações sucessivas que fazemos (em geral intuitiva ou mesmo inconscientemente). Logo, também de acordo com a definição kantiana: “o que quer que segundo a prescrição da faculdade do juízo possamos apresentar na intuição (por conseguinte representar esteticamente), é em suma fenômeno, por conseguinte também um quantum”.
Mas nós não somos kantianos.
No início do século XX, o físico Max PLANCK chegou à conclusão de que as partículas de matéria e as ondas de luz emitem ou absorvem energia em uma quantidade mínima - o quantum. Com isso estava posta uma das bases da chamada mecânica quântica, que lida com as propriedades dos átomos e de seus constituintes. Em 20 anos, foram colocadas as principais questões e teorias desta física que lida com o “mundo do muito pequeno”.
A partir da constatação da “dualidade onda-partícula”, niels BOHR desenvolveu seu Princípio de Complementaridade, segundo o qual um acontecimento quântico pode ser descrito de duas maneiras completamente diferentes, pois onda e partícula são formas complementares de existência que só podem ser determinadas a partir da observação. Já com o Princípio de Incerteza, de Werner HEISENBERG, estabeleceu-se que é impossível determinar com precisão absoluta a quantidade de movimento de uma partícula (sua posição e sua velocidade num determinado momento), uma vez que o próprio ato da observação implica em influências no comportamento desta partícula.
Com a física quântica, todo um novo universo era descoberto - um universo de probabilidades e incertezas (que motivou o maior físico moderno a formular em oposição a famosa frase: “Deus não joga dados”).
Mas a grande novidade das primeiras décadas do século XX era a Teoria da Relatividade. Constituindo uma verdadeira revolução, as brilhantes idéias de Albert EINSTEIN transformaram radicalmente nossas concepções de tempo, espaço, matéria e energia (de um Universo regido por uma mecânica determinística, passamos a habitar um contínuo espaço-temporal no qual nada é absoluto e quase tudo é relativo).
Com postulados intrigantes (que contrariam os conceitos da física clássica e as crenças do senso comum), como o de que “uma régua em movimento é mais curta do que a mesma régua em estado de repouso” ou de que “como conseqüência de seu movimento, um relógio anda um pouco mais lento do que no estado de repouso”, a nova teoria conquistou admiradores entusiasmados e críticos fervorosos, fazendo a fama de seu autor. Assim, a influência da Teoria da Relatividade logo extrapolou os domínios das ciências naturais, chegando às artes, à filosofia, à estética e à cultura em geral (a ponto de a equação E = mc² ter se tornado mais um signo pop).
Porém, é preciso lembrar que as mesmas teorias que nos permitiram entender melhor a estrutura e a dinâmica de nosso universo serviram de base para a construção de bombas atômicas - como as que foram covardemente detonadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki em 1945, exterminando instantaneamente centenas de milhares de seres humanos (além de mutilar e deixar sequelas irreparáveis em outros tantos).
Quando tinha 4 ou 5 anos de idade, em minha casa havia um disco - que ainda hoje guardo - cuja capa (com quatro cabeças postas em bandejas sobre uma mesa em meio a alimentos e bebidas) me intrigava. Entre faixas como Rondó do Capitão ou Mulher Barriguda que soavam familiares ou até engraçadas, o primeiro disco do grupo Secos e Molhados trazia Rosa de Hiroshima, um poema de Vinícius de Morais cujos versos ficaram cravados em minha memória (às vezes a arte nos pega assim, fisgando como um anzol, e na hora nem entendemos bem o que se passa).
Nos últimos 20 anos, aquela “anti-rosa atômica” esteve guardada, esperando para de alguma forma desabrochar anti-euclidiana nas páginas de QUANTUM.