ORIGENS

Wellington Srbek

Desde o início, defini que Solar não teria os coloridos e espalhafatosos uniformes dos super-heróis norte-americanos, o que por si só já o afastava daquele popular gênero de quadrinhos. Mas seriam necessários outros elementos para diferenciar e justificar meu projeto, pois eu não queria fazer apenas mais uma revista de personagem com superpoderes.

O fato é que, a partir daí, “o universo passou a conspirar a meu favor” e as peças do mosaico criativo foram surgindo. Primeiro, vieram as influências históricas e filosóficas, saídas do curso de História que eu iniciava na Universidade Federal de Minas Gerais. Descobri ali o conceito de “Apolíneo e Dionisíaco” de Nietzsche, o “Complexo de Édipo” de Freud e a concepção do “herói trágico” grego, que fundamentariam o personagem e alguns dos primeiros roteiros da série.

Na mesma época, li pela primeira vez as HQs de Monstro do Pântano escritas por Alan Moore, que me mostraram ser possível conciliar histórias de heróis a elementos místicos e míticos. Em seguida, ganhei do cartunista Nilson Azevedo sua revista A Falta de Educação no Brasil, com a qual aprendi como criar uma história com ação, partindo de situações cotidianas e de uma ambientação local. Fundamentais para minha formação como quadrinista, esses trabalhos ensinaram-me como escrever um roteiro envolvente, tendo como base a realidade brasileira.

Em poucas palavras, o personagem que eu estava criando era um “herói apolíneo”, um herói solar. Mas faltava ainda uma característica que marcasse sua identidade em relação à de outros já existentes. Em grande medida, a razão de ser do herói e o porquê de ele ser um indivíduo especial são sua origem e a identidade cultural que ele representa. Portanto, era preciso dar uma origem cultural a meu herói. Foi aí que chegou a minhas mãos o ótimo Maíra de Darcy Ribeiro e, mais tarde, o saboroso Xingu: os índios, seus mitos de Orlando e Cláudio Villas Bôas. Com isso, o mosaico estava completo: eu já tinha em mente o herói que chamaria de Solar. Para saber como foi a trajetória editorial desse herói brasileiro, clique aqui.