| TRAJETÓRIA EDITORIAL
Wellington Srbek
Em julho de 1994, eu ensaiava os primeiros esboços para o visual de Solar, enquanto concebia a trama principal. Escolhi para ele o nome Gabriel Azevedo e criei personagens coadjuvantes, como seus pais adotivos, sua mãe Sofia Ribeiro e sua esposa Cristiane Villas Bôas. Ele voaria e enfrentaria desafios similares aos do Super-Homem dos anos 80 e trabalharia como fotógrafo, passando por dificuldades semelhantes às do Homem-Aranha dos anos 70. Porém, no lugar de uma grande metrópole norte-americana, as aventuras de meu personagem aconteceriam em minha cidade-natal, Belo Horizonte.
Em sua concepção inicial, o projeto teria um total de vinte e um capítulos, divididos em três livros: “Asas de Ícaro”, “Solo Sagrado” e “Humanidades”. No início do segundo semestre de 1994, os dois primeiros roteiros já estavam prontos. Porém, eu havia decidido que não desenharia a série, pois meu estilo mais limpo e com elementos cartunizados não se adequava ao clima de ação da HQ. Só me restava procurar um desenhista. Foi então que conheci o ilustrador Ricardo Sá, que se interessou em embarcar no projeto comigo, após ver os dois primeiros roteiros. Desenhista veterano, em pouco tempo ele acertou um visual ideal para os personagens e começou a desenhar a primeira HQ.
Enquanto Solar tomava forma, eu continuava a escrever novos capítulos da série e começava a buscar uma forma de pagar pelo trabalho de Ricardo e financiar o lançamento de uma revista. Já em 1995, consegui a aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura para sete números da revista SOLAR. Mas restava ainda conseguir empresas que financiassem o projeto, através de um mecanismo de renúncia fiscal. E uma vez que a Lei de Incentivo só cobria uma parcela dos custos, tive também que conseguir apoios e patrocínios complementares. Mas, enfim, com um logotipo criado por Cristiano Seixas e a colaboração do amigo Dênio Takahashi, em março de 1996 pude lançar o primeiro número da SOLAR.
Ter aquele n°. 1 em mãos foi uma sensação indescritível! É claro que o trabalho estava apenas começando e eu logo descobriria que conseguir lançar uma revista não era o maior desafio para um quadrinista independente. Não demorou nada para eu perceber que a divulgação e a distribuição eram os verdadeiros vilões da produção brasileira de quadrinhos. Além disso, produzir uma HQ de vinte e duas páginas, sem poder se dedicar integralmente ao trabalho, não é nada fácil. Assim, mesmo tendo os quatro primeiros capítulos já desenhados, Ricardo acabou se atrasando no quinto e sexto. Então, para o sétimo capítulo, assumiu uma equipe do Estúdio HQ, formada por Erick Azevedo, Sidney Telles, Fernando Rabelo e Fabiano Barroso.
O fato é que, com alguns rearranjos, seguimos em frente lançando em 1996 as revistas com os sete capítulos do livro “Asas de Ícaro”, reunidos numa coletânea em dezembro daquele ano. A revista SOLAR chegava ao fim, mas a saga do personagem continuaria numa nova publicação. Afinal, enquanto produzia as últimas edições de minha primeira revista, consegui a aprovação pela Lei de Incentivo para as sete edições da CALIBAN. Lançada em agosto de 1997, a nova revista daria continuidade às aventuras de Solar, trazendo novos personagens e séries, bem como histórias curtas. Além de Ricardo Sá, desenhistas ligados ao Estúdio HQ e ao Big Jack participaram das edições, que contaram ainda com o talento de Flavio Colin, Julio Shimamoto e Mozart Couto.
Em seu primeiro ano, a CALIBAN teve quatro números publicados, com memoráveis festas de lançamento e uma pequena participação na 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Ficaram para 1998 os três últimos números, que completaram as séries lançadas na revista. A principal delas, é claro, era a saga de Solar, que reestreou na CALIBAN n°1 com o primeiro capítulo de “Solo Sagrado”. O personagem voltaria em quase todas as edições da revista, mas minha idéia inicial para uma série de vinte e um capítulos seria resumida para quatorze, sem perdas muito substanciais. A verdade é que naquele ano de 1998 eu aspirava a vôos ainda mais altos do que aquelas primeiras revistas poderiam me levar. O principal deles chamava-se ESTÓRIAS GERAIS.
Com SOLAR e CALIBAN realizei meu sonho de lançar revistas em quadrinhos. Criá-las foi uma grande aventura e, embora não tenham sido um sucesso comercial, elas marcaram seu lugar no circuito dos quadrinhos independentes. Quanto ao Solar, apesar de alguns excessos e falhas em suas HQs, ele é um personagem original e interessante, que rendeu boas situações narrativas. Tanto é que, ao longo dos anos, notei influências e até mesmo plágios de meu trabalho em outros quadrinhos brasileiros. Com isso, por gostar muito do conceito do personagem e com o objetivo de lhe dar histórias mais bem-acabadas, decidi em novembro de 2004 trabalhar numa reformulação. Mas esta, como se diz, é uma outra história...

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